26/12/2017

RESENHA: Garotas de Vidro - Laurie Halse Anderson

GAROTAS DE VIDRO
Autora: Laurie Halse Anderson
Editora: Novo Conceito
Páginas: 272
Edição: 1
Ano: 2012
Lia está doente e sua obsessão pela magreza a deixa cada vez mais confusa entre a realidade e a mentira. Mas ela perde totalmente o controle quando recebe a notícia de que sua melhor amiga, Cassie, morreu sozinha em um quarto de motel. E o pior: Cassie ligou para Lia 33 vezes antes de morrer. O que começou como uma aposta entre duas amigas para ver quem ficaria mais magra tornou-se o maior pesadelo de duas adolescentes reféns de seus próprios corpos. Ao negar seu problema, Lia impõe a si mesma um regime cruel em que contar calorias não é o bastante. Ao omitir seu desespero, apela ao autoflagelo numa tentativa premeditada de aliviar seus tormentos. Seus pais e sua madrasta tentam ajudá-la a qualquer custo, mas nem mesmo sua doce irmã, Emma, consegue fazer com que Lia pare de se destruir. Agora, Lia precisa encontrar um modo de lidar com todos os seus fantasmas, e a morte de Cassie é um deles. Garotas de Vidro é uma história intoxicante sobre a autorrepugnância e a busca pela identidade. Neste livro, Laurie Halse Anderson aborda de modo realista a dolorosa condição de jovens que sofrem de transtornos alimentares e sua complicada relação com o espelho e consigo mesmos. 
Oi Leitores, tudo bem com vocês?
Melhores amigas de infância, Cassie e Lia não se separavam por nada. Viviam em famílias com ambientes extremamente conturbados, indo de uma mãe que sabia mais dos seus pacientes do que da própria filha à um pai que arrumou outra família e vivia para a nova esposa, as duas só tinham uma à outra para recorrerem. Em uma noite aleatória, Lia e Cassie fazem uma promessa, um pacto, de serem não as garotas mais lindas, mais sexies ou mais inteligentes, mas elas seriam as garotas mais magras do colégio. Depois desse dia as suas vidas nunca mais foram as mesmas, Cassie se tornou bulímica e Lia uma anoréxica. Mas agora Cassie estava morta, e o que restava para Lia fazer se não conviver com as 33 ligações deixadas no celular de Lia minutos antes de sua melhor amiga se matar?
Andamos de mãos dadas pelo caminho de pão de mel até a floresta, sangue pingando de nossos dedos. Dançamos com bruxas e beijamos monstros. Nós nos transformamos nas garotas geladas e, quando ela tentou ir embora, eu a puxei de volta para a neve porque estava com medo de ficar sozinha.
O livro começa pouco depois da morte de Cassie e retrata, sobretudo, uma Lia perdida. A Lia que conhecemos é uma garota complexada com seu corpo, que conta cada grama e cada caloria que ingere e que só ingere o que é necessário para que seu corpo sobreviva por mais um dia. Essa Lia já ficou internada duas vezes em um hospital para anoréxicos, mas ela não quer melhorar, ela engana seus pais, engana sua madrasta e até mesmo sua meia-irmã, Emma, a única pessoa pela qual vale a pena viver. Ela se corta para aliviar a dor que é ser quem ela é. Ela adultera a balança para que sua madrasta não descubra que está perdendo mais e mais peso e sabe que só vai se contentar quando chegar no 0. 0 kg é o que importa. E agora para completar, Cassie está morta. E deixou 33 ligações.
Quarenta quilos e trezentos gramas. Eu poderia dizer que estou animada, mas seria mentira. O número não importa. Se eu chegasse a 32, iria querer 29. Se eu pesasse 4,5 quilos, não ficaria feliz até chegar aos 2,25. O único número que seria suficiente é 0. Zero quilos, zero vida, tamanho zero, zero duplo, zero e ponto. Zerado é sinônimo de estar pronto para tudo. Agora eu entendo.
Em primeiro lugar, Garotas de Vidro está longe de ser só mais um livro que trata sobre transtornos alimentares. A Laurie soube não só nos fazer entender o que essas meninas passavam quanto nos fez sentir tudo aquilo que a Lia sentia. Poucos livros me fizeram ficar tão absorta em uma história como esse, onde as coisas nunca foram escritas palavra por palavra, mas sim sentidas. Você simplesmente sabia o porque que a Lia fazia o que fazia, as calorias contadas, cada grama engordada, cada ida à psicóloga, cada milímetro do que ela sentia foi sentido também por mim e, talvez por isso, esse livro mexeu tanto comigo. A minha vontade era de pegar a Lia e cuidar, dar à ela tudo aquilo que ela não pode ter dos pais, todo o carinho que foi negado à ela. Portanto quando eu digo que esse livro foi extremamente bem escrito, eu digo com toda a certeza que não existiria forma melhor de transcrever a dor de alguém do que a forma como a Laurie conduziu a história. 
Fume pólvora e vá para a escola para pular por dentro de aros, se sentar, pedir e fingir de morta quando mandam. Escute os sussuros que se enrolam na sua cabeça à noite, te chamando de feia e gorda e vaca e biscate e o pior de tudo: "uma decepção". Vomite e passe fome e se corte e beba porque você precisa de um anestésico, e funciona. Por um tempo. Mas então o anestésico vira veneno e a essas alturas é tarde demais porque você está seguindo essa estrada diretamente para a sua alma. Você está apodrecendo e não consegue parar. 
Quanto à diagramação, achei sensacional. De verdade. O espaçamento entre os capítulos, a transição entre os eventos, passado e presente, caminhou tudo muito bem. A capa, confesso que vi versões que me deixaram mais empolgada, acredito que existem formas de passar a mensagem de forma mais clara, mas de toda forma gostei muito da ideia do gelo presente na capa e tudo o que ele representa. No mais, senti falta de um final melhor explicado. A sensação que ficou foi de que a autora tinha um limite de páginas para escrever e gastou a maior parte dele para contar a história, então correu com tudo no final. Mas fora isso, peço que vocês simplesmente LEIAM. 

Acredito que vocês já perceberam o quanto eu adoro ler sobre temáticas que envolvem transtornos psicológicos e esse não só é mais um com esse gênero, como é um livro que eu deveria ter lido antes. Entender e descobrir formas de ajudar pessoas que passam por esse tipo de problema é algo que todos deveriam fazer e jamais deixar que as coisas sejam negligenciadas. Cassie morreu porque entrou em um caminho sem fim e Lia estava indo para o mesmo destino e ninguém para pra pensar no quanto essas meninas poderiam ter um futuro diferente se tivessem tido ajuda no começo, se tivessem alguém que notasse o que elas estavam prestes a fazer, se tivesse alguém que descobrisse quando Cassie forçava o vômito ou alguém que soubesse quantos comprimidos de laxante Lia gastava em um mês. Sejamos mais observadores, sejamos mais amigos e mais complacentes com a dor do outro. É isso pessoal, espero que consigam ler esse título em breve! Sei que no momento ele está em falta em muitas livrarias, mas é bem fácil encontrá-lo em sebos e pessoas revendendo pela internet, foi assim que consegui o meu! Espero que tenham tido um Natal abençoado e que 2018 comece com tudo por aí! Um xêro e até semana que vem!


21 comentários

  1. Nossa, Hemely, fiquei arrepiada.
    Que história forte, e realmente parece muito bem escrita.
    É um tema muito delicado, meu coração se apertou com a resenha, imagina com a leitura!? Não sei se consigo ler... mas desejo tanto que Lia tenha um final feliz.
    Fiquei curiosa para conhecer as outras capas, vou procurar.

    A mensagem que você passa na resenha é linda; precisamos muito disso, de olhar para o outro. Não aquele olhar superficial, mas olhar mesmo. Isso é de uma importância enorme.

    Que o seu Natal também tenha sido abençoado. E que 2018 seja repleto de luz e amor. E livros.

    Beijos

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    1. É de arrepiar mesmo Ludy! Eu não consegui ler esse livro muito rápido exatamente por isso, é tudo muito forte, é necessário ler de pouco em pouco pra que você não se perca junto com a personagem sabe? É bem louco. Acho que o único livro que me fez sentir assim na vida foi Por Lugares Incríveis, mas ainda assim não chegou no nível de Garotas de Vidro.
      Beijos!

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  2. Quando li essa história gostei muito da forma como a autora soube pegar o tema e não deixar clichê. Tem tanto livro com adolescente e coisa assim que a gente acaba achando bobo né...
    Mas ela conseguiu mesmo colocar os sentimentos ali acima de tudo e isso foi o que mais gostei. De sentir o que a garota sentia, entendê-la....e bate mesmo um sentimento de cuidar da garota, querer que ela fique bem e dar tudo que ela precisa. A gente sente a dor dela e só quer que passe.
    É um baita livro. Super recomendo também.

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    1. Oi Cris! É exatamente isso, se tem algo que ela fez foi não deixar a história ser clichê. Espero que mais pessoas consigam lê-lo e compreender tudo isso que eu pude absorver nessa leitura.

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  3. A anorexia e bulimia são assuntos muito importantes e que precisam ser mais abordados nos livros, para que possamos entender mais do assunto e ter um aprendizado sobre quão sério os distúrbios alimentares são, e que pessoas que sofrem com isso precisam de ajuda e compreensão!

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    1. Oi Dai! Acredito que não só a anorexia e a bulimia, mas também a depressão, o TOC e tantos outros problemas mentais. Muitas vezes eles são extremamente negligenciados pelas pessoas que de fato tem poder pra ajudar, os pais, amigos e familiares mais próximos.

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  4. Feliz Natal!
    Olha, eu tenho esse livro há algum tempo, consegui através de uma troca no Skoob e me arrependi de ainda não ter lido! É que são tantos livros que a gente acaba passando outros na frente e quando vê, o livro tá lá parado há meses.
    Também gosto de livros que abordam transtornos psicológicos, vou passar este livro na frente dos outros e lerei no começo de 2018!

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    1. Oi Thu!
      Feliz natal!! :D
      Espero que consiga ler em breve mesmo! Depois me conta o que achou, a leitura não é de longe prazerosa, mas vale muito à pena :)

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  5. Ola!!
    Gosto bastante de livros que abordan transtornos psicológicos, anorexia e bulimia é um assunto muito delicado e que acontece muito entre os jovens, principalmente aqueles que os pais estão ausentes e pouco se importam com os filhos, gostei da resenha e já quero ler assim que tiver a oportunidade, quero saber se a Lia conseguiu se livrar da anorexia. Adorei a Dica!!

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  6. Olá Hemely! Livros que abordam esse tema também mexem muito comigo. A autora conseguiu mesmo nos transportar para o universo de Lia e nos fez compreender toda a sua dor. É um livro bem impactante que mexe com nossas emoções. Acho que ninguém gosta de finais repentinos e mal explicados. Com certeza vou querer ler essa obra. Beijos

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  7. Olá, além de abordar de uma forma sensata e crível o transtorno alimentar, Garotas de Vidro faz uma ênfase à importância do diálogo, capaz de evitar muitas tragédias. Às vezes tudo o que precisamos é de um ombro amigo para voltar a ter esperança. Beijos.

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  8. Hemely!
    Tive oportunidade de ler esse livro há alguns anos atrás, quando ainda tinha parceria com a NC.
    Confesso que na época não foi um livro que achei dos melhores, por que? Porque era muito sofrimente e cheguei a achar o livro deprimente mesmo...Embora saiba que o tema tem de ser abordado e discutido, achei que autora exagerou em algum ponto, ou talvez essa fosse mesmo a intenção dela, mas para mim, foi uma leitura muito triste...
    Uma semaninha abençoada na paz do Senhor !
    “Para ganhar um ano novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre.” (Carlos Drummond de Andrade)
    cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA dezembro 3 livros + 2 Kits papelaria, 4 ganhadores, participem!

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    1. Oi Rudy! É uma leitura muito triste mesmo e eu acredito que essa foi a real intenção da autora, fazer com que os leitores pudessem entender de fato como se sente uma pessoa que passa por esse tipo de transtorno. É claro que algumas coisas do livro foram demasiadas, mas é a realidade mais nua e crua de pessoas que passam por esse tipo de problema e eu não conseguiria enxergar forma melhor de aprender sobre isso do que sentindo na pele.
      Beijo grande e uma semana linda pra você também!

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  9. Oi Hemely.
    Eu li esse livro e eu AMEI!
    Trata de assuntos muito importantes, que muitas pessoas possuem e não sabemos como ajudar. É um livro que todos deveriam ler e discutir sobre.
    A capa realmente é linda!
    Bjs

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  10. Tenho muito interesse em ler este livro, primeiro por se tratar de um tema forma, em que acredito que deve ser debatido na sociedade, para que possamos compreender melhor e sentir o que estas pessoas que sofrem deste transtorno passam, e sofrem. E vejo que e por isto que esta estória, não e só mais um livro, mas o livro. Pois trás a retratação de uma adolescente de forma real, e reflexiva, fazendo com que nos envolvemos na leitura, mas mais que isto sentimos empatia pela personagem.

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    1. Oi Lana! Exatamente, é o sentimento de empatia que transforma a leitura, por mais dolorosa que seja.

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  11. Gosto muito de ler livros que falam de alguma doença específica, fiquei curiosa quanto a esse, pois esse assunto de anorexia e bulimia ainda acontece e se não percebermos, pode ser tarde demais, como no caso da personagem Cassie. Acho que ao ler esse livro podemos aprender muito com o sofrimento dessas garotas e ficarmos atentos ao que acontece com as pessoas a nossa volta.

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  12. Que historia triste mexe com a gente, os temas abordados são importantes, é bom estar em alta assim faz com que fiquemos atentos, se a familia prestasse mais atenção nas meninas poderiam ter evitado e até ajudado elas com esses transtornos. Pena o final corrido deveria ter um mais elaborado.

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  13. Olá!
    Eu estou desejando ler esse livro há anos, eu conheço bem a trama desse livro. Uma historia muito envolvente e que trata de doença que muitas garotas na fase da adolescência sofre com isso e muito interessante como a autora aborda esse tema, eu quero muito ler.

    Meu Blog:
    Tempos Literários

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  14. Oi, Hemely. Não leio sick lit, é um gênero que me afeta demais e apesar de saber da importância desse tipo de história, da questão da conscientização, empatia etc, costuma ser uma leitura muito indigesta pra mim. Acho uma ótima dica e uma tema realmente fundamental de ser debatido, mas na hora de escolher o que ler prefiro me aventurar por outras coisas, rs.
    No entanto devo dizer que parece realmente um livro muito profundo e acho que consigo visualizar o porquê de você dizer que não se trata apenas dos transtornos alimentares. Acho que tudo tem uma base psicológica e precisamos sim ser mais compreensivos com a dor do próximo.
    Beijos.

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  15. Lembro que esse livro foi comentando de uma maneira bem positiva na época do lançamento e até um tempo depois. Já tinha um tempo que não via nada dele e agora lendo sua resenha me pergunto por quanto tempo mais vou enrolar pra ler esse livro. O livro já está ficando difícil de achar e eu aqui enrolando. Bom, assim como você eu gosto de livros que abordam esses transtornos psicológicos. Acredito que livros com essas temáticas nos fazem refletir sobre coisas que as vezes não entendemos muito bem, que tenhamos mais empatia com o próximo...
    Uma pena saber que o final é um tanto quanto corrido, mas muito bom saber também que isso não estragou a história. Acho que vou parar de enrolar e tentar ler ano que vem.

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