07/12/2018

RESENHA: VOX - Christina Dalcher

VOX
Autora: Christina Dalcher
Editora: Arqueiro
Páginas: 320
Edição: 1
Ano: 2018
Uma distopia atual, próxima dos dias de hoje, sobre empoderamento e luta feminina.
O SILÊNCIO PODE SER ENSURDECEDOR #100PALAVRAS
O governo decreta que as mulheres só podem falar 100 palavras por dia. A Dra. Jean McClellan está em negação. Ela não acredita que isso esteja acontecendo de verdade.
Esse é só o começo...
Em pouco tempo, as mulheres também são impedidas de trabalhar e os professores não ensinam mais as meninas a ler e escrever. Antes, cada pessoa falava em média 16 mil palavras por dia, mas agora as mulheres só têm 100 palavras para se fazer ouvir.
...mas não é o fim.
Lutando por si mesma, sua filha e todas as mulheres silenciadas, Jean vai reivindicar sua voz.
O início desse livro me deixou bem desconfortável...

Já imaginou poder falar apenas 100 palavras por dia? Não, né? Nem a Jean McClellan, a protagonista de Vox, que nunca imaginou passar por isso, mas após a escolha de um novo presidente da direita ultrarradical as coisas começam a mudar... mulheres são proibidas de trabalhar, de falar e de ter opinião. Meninas são ensinadas a cozinhar, costurar, ser submissa aos seus maridos porque é pra isso que a mulher foi criada. E se falarem mais do que as 100 palavras levam choques e esses choques só vão aumentando a medida que as palavras vão ultrapassando o limite.

Jean está inconformada com essa situação, se sente culpada já que quando sua amiga da faculdade a chamava pra ir passeatas, discutir, brigar, ela preferia se acomodar já que achava que nada do prometido iria acontecer. E vendo tudo isso acontecer em tão pouco tempo a deixa consternada, observar seus três filhos crescendo e sendo educados de maneira deturpada e o mais revoltante, sua filha pequena sendo impedida de falar com medo e Jean, como uma profissional especializada em neurolinguística, sabe que isso pode causar sérios danos na fala da caçula. Além disso, ainda tem de lidar com o marido, Patrick, que pra ela não move um dedo pra ajudá-la ou defendê-la.
“Portanto, não estou me sentindo extravagante hoje, sobretudo depois de lembrar da facilidade com que nos tornaram prisioneiros em nosso próprio país, depois de Patrick me abraçar e dizer para não ficar pensando em como as coisas eram antes.”
Um dia o governo solicita a ajuda profissional da Jean, como cientista especialista em neurolinguística, para ajudar o irmão do presidente. Ela resiste um pouco, mas acaba cedendo e vendo ali uma forma de tentar fazer alguma coisa, sair dessa zona de conforto e agir. E vai a luta...

VOX é uma distopia bem próxima da realidade, abordando inúmeros temas como fanatismo religioso, machismo, conservadorismo, extremismo e muita alienação. Quanto mais adentrava na história mais assustada e perturbada eu ficava com alguns discursos que são bem similares aos que eu li e vi recentemente... Batia a angústia e o medo. É incômodo, revoltante. É um alerta.

A obra tem capítulos curtos e a escrita da autora é viciante, você vai lendo e lendo e quando se dá conta, acabou. Mas devo admitir que em muitas partes fiquei tão incomodada que tinha de parar por um momento, era angustiante demais, ficava imaginando isso na nossa realidade. As primeiras 100 páginas foi a apresentação da nova realidade dos personagens, então não há muita ação, mas são justamente essa primeira parte que deixa o desconforto. Te faz refletir, pensar, questionar, falar, querer ser ouvida, ser respeitada.
“A mulher não deve ir às urnas, mas tem uma esfera própria, de incrível responsabilidade e importância. Ela é a guardiã do lar, nomeada por Deus... Ela deve ter total consciência de que sua posição de esposa e mãe, e do anjo do lar, é a tarefa mais santa, mais responsável e régia designada para os mortais; e descartar qualquer ambição de algo mais elevado, já que não existe nada tão elevado para os mortais.”
Quando Jean volta a trabalhar reencontra pessoas que trabalhavam em um projeto com ela, Lin e Lorenzo. E é aí que a história começa a focar em como reverter essa realidade distorcida imposta pelo governo... mas também é a partir disso que meu ranço com a protagonista começa a surgir com mais força, a autora romantizou uma coisa ridícula que me deixou irritada e tirou um pouco da graça do livro pra mim. Me deixou bem descontente.

Outro ponto que me chateou na obra, é que o final foi super corrido, o grupo da resistência foi falado bem superficialmente, só apareceu quando a protagonista precisou. Queria que eles tivessem tido um destaque maior, até porque Jean não iria conseguir fazer nada sem eles, mas a autora só quis focar e destacar ela.

Alguns personagens da resistência era o Del, um carteiro, e sua esposa que apareceram bem pouco, mas pareciam pessoas incríveis. Um outro personagem que eu gostei bastante foi Patrick, o marido dela que se doou, quis protegê-la de tudo (e ela nem aí pra ele, esse personagem foi muito injustiçado, deixo a minha revolta). Gostaria de mencionar o Steven, o filho mais velho deles, que foi um personagem que gera revolta por suas atitudes já que ele segue muito as coisas impostas pelo governo, mas no final das contas é só um adolescente que foi alienado, mas até que não tarda pra ele se dá conta disso (mas também não há destaque em relação a isso). Outra personagem com pouco destaque e mal apareceu foi a Jack, a amiga da Jean, que apareceu bastante nas primeiras páginas nas lembranças da protagonista.
“– Espere só. Daqui a alguns anos vai ser um mundo diferente se a gente não fizer alguma coisa. Expansão do Cinturão da Bíblia, uma representação de bosta no Congresso e um bando de garotinhos famintos por poder que estão cansados de ouvir dizer que precisam ser mais sensíveis. – Então ela deu um riso maligno que sacudiu todo o seu corpo. – E não pense que serão todos homens. As Recatadas do Lar vão estar do lado deles.”
O início da obra foi incrível, deixa reflexão, desconforto, incômodo, mas a autora se perdeu bastante do meio pro final da obra. As coisas aconteceram rápido demais, as reviravoltas são legais, mas achei um pouco rasas, poderia ter trabalhado melhor nisso. Infelizmente terminei essa obra com ranço da protagonista, por seu egoísmo e algo que ela fez que é errado e a autora romantizou e só pensou - mais uma vez - nela e no que ela queria (não gostei mesmo, queria muito desabafar, mas é spoiler). Talvez a decisão da autora ao colocar isso é para ter um 'final feliz', mas não gostei.

Não posso tirar o brilho das críticas feitas por VOX. É uma leitura que te faz questionar o mundo e a si mesma, refletir sobre o que está acontecendo no mundo atual. Vai te incomodar e te chocar. Mas é necessário sairmos das nossas bolhas, da nossa zona de conforto e lutemos diariamente pra não nos calarem.


9 comentários

  1. Olá! Eita que esse livro está dando o que falar e eu estou aguardando o meu chegar para poder ler. Adoro distopias e essa realmente acaba refletindo um pouco do que vem acontecendo na nossa sociedade, uma pena que você não tenha gostado muito de algumas atitudes da protagonista, e que a autora tenha corrido um pouco no final, ainda assim é um livro que parece que nos fará refletir muito sobre nosso papel na sociedade, e o que estamos fazendo para muda-la.

    ResponderExcluir
  2. Arrepiante!
    A realidade está tão próxima da distopia...
    Quero muito fazer essa leitura, ainda não consigo imaginar como funciona essa questão das palavras; mas sinto que será uma leitura forte e necessária.
    Fico feliz que no geral tenha gostado.

    Beijos

    ResponderExcluir
  3. Olá!
    Esse livro é claustrofóbico. É muito triste pensar em uma realidade próxima a essa. Durante o livro eu encontrei algumas similaridades com a nossa realidade atual e foi sufocante. Realmente, é uma leitura pesada e traz reflexões super válidas. Para nós, mulheres, é doloroso.
    Concordo com você em relação ao final. Estava gostando muito da obra, mas eu esperei bem mais. Fiquei muito triste quando aconteceu "aquilo" com o marido dela e ela simplesmente... Seguiu, parece que sem remorso. Quando acabou eu pensei "mas e os outros? É só isso?". Eu juro que queria uma continuação, mas acho bem difícil, né? Bem, de qualquer forma acho que o que a autora quis passar com a obra e as reflexões foi o que mais prevaleceu.
    Adorei a resenha!
    Beijos

    our-constellations.blogspot.com

    ResponderExcluir
  4. Oi Kamilla,
    Vox é um dos livros mais comentados dos últimos tempos e com críticas tão positivas e com uma história tão importante fica difícil não se interessar pelo livro. Em um mundo machista a voz é um dos poucos recursos que nós mulheres temos e que ainda podemos usar para nos impor e nos defender, então nem imagino como deve ser ter isso limitado a poucas palavras diárias. A sinopse de Vox me assusta por se apresentar de forma tão real, principalmente se compararmos a algumas coisas que vivenciamos durante este ano. Acredito em você de que o inicio o livro seja bem angustiante, pois dá para se colocar no lugar da protagonista e tentar imaginar como seria vivenciar seus medos e revoltas. Acho que essa história tem muitas questões importantes a serem discutidas, mas talvez a autora devesse ter dedicado um pouco mais de páginas para o desenvolvimento da luta contra o governo, nas soluções para os problemas. Esse é um livro que poderia ter mais de uma protagonista, poderia ter a visão de outras mulheres, pois nem todas irão agir e pensar da mesma maneira perante uma situação como esta. Ainda assim é um livro que anseio para ler.

    ResponderExcluir
  5. Oi, Kamilla!
    Eu vi uns comentários mesmo sobre o final corrido.
    Eu quero muito ler esse livro, mas ainda não estou preparada psicologicamente para isso.
    Beijos
    Balaio de Babados
    Natal Literário 2018: 5 kits, 10 ganhadores. Participe!

    ResponderExcluir
  6. Kamilla!
    Do jeito que falo demais, acho que seria condenada em pouco tempo se vivesse nessa distopia...kkk
    Bom ver que traz assuntos importantes e que podemos correlacioná-los com a realidade, embora pareça bem chocante e nos assute, porque deve ser algo permissivo, uiii...
    cheirinhos
    Rudy

    ResponderExcluir
  7. Desde lançamento do livro eu to mto curiosa para ler! Ganhei ele numa promoção então estou toda feliz para começar a leitura!
    Se tivesse que falar só sem palavras por dia eu ia ficar louca, já que sou super tagarela!
    Achei mto interessante esse tema abordado, porque é bem atual já que sempre estão tentando nos calar!

    beijinhos
    She is a Bookaholic

    ResponderExcluir
  8. Oi, Kamilla
    Desejo esse livro desde seu lançamento.
    Tenho certeza que é uma leitura fascinante que nos faz pensar na sociedade atualmente e sobre o que estamos fazendo para colaborar com alguns acontecimentos.
    Deve ser horrível poder falar apenas 100 palavras por dia e se passar ainda levar choque.
    Beijos

    ResponderExcluir